DES(NU)DANDO MERCEDES DANTAS

 

Carla Patrícia Santana - UFBA

 

 

Desnudar a sociedade. É a marca dos contos publicados nos livros Nús e Adão e Eva da escritora baiana Mercedes Dantas. Analisando as relações sociais, basicamente classe e gênero, e tendo como principais personagens homens e mulheres, as narrativas desnudam o ser humano. Sem falsos moralismos, sem romancear nem tenta justificar as atitudes dos personagens, a narradora vai colocar-se, no livro Nús, como uma fotógrafa que busca registrar os momentos e essa atitude evidencia a intencionalidade em aproximar os contos da realidade, de tornar verídico a ficcionalidade do texto. Abrindo o livro Nús está: “Saio com a minha Kodak em punho e entro na grande feira da Vida. Coleciono instantâneos surpreendentes. E os vou depois colocando assim, à luz tropical, sob olhos deliciados...”. Assim, os contos publicados não são mera invenção e sim acontecimentos reais, são realidades ficcionalizadas, capturadas pela máquina, ou seja, pelo olhar da narradora e expostos em narrativas do seu arquivo memorialístico. E a leitura desses momentos capturados está condicionada ao contexto vivido, por isso as chapas fotos são colocadas “à luz tropical”. (será que ela está mostrando as formas diversas de comportamento entre a norma e o Brasil? Por que à luz tropical?) A narradora introduz o conto “O sábio equilíbrio” colocando que este é mais um momento de flagrante, enquanto ela buscava por diversos lugares até perceber que o tinha ali na “vizinhanças”, não precisando ir muito longe para encontrar exemplos que mostrem essas relações sociais:

 

Tremenda vacilação a minha! É que perambulei com a objetiva por muitas casas de famílias, bailes, chás, enterros, ‘footings’, até bondes em busca de uma chapa deliciosa e autêntica, chapa que me fizesse sorrir satisfeita integralmente livre de terríveis dúvidas”.

 

A narradora é uma caçadora de imagens que contém uma história e colecionadora: “Depois que me fiz colecionadora dessas figurinhas do século XX, brunidas, ocas, ridículas, maquiladas, pseudos troços humanos...”.

Portanto colecionadora de representações sociais, porque através dos tipos é que vai traçar toda uma crítica à sociedade e, não são poucos os exemplo disponíveis para realizar tal crítica: “Nesse momento são tantos exemplares a desafiar a focalização documentadora de minha kodak!”(O sábio equilíbrio). No livro Nús, são diversos os contos introduzidos com essa referência à fotografia, ao instantâneo que não mais se repete. Em “Neo-Homem” a narrativa é introduzida da seguinte forma: “Não sorrias. O homem cá da chapa nítida, colorida, é um mancebo de seus vinte e oito anos...”; também, no conto “Amigas” a narradora informa que são fotos ainda em negativo e em preto e branco.

Confrontando este conto com os trechos dos dois citados anteriormente, têm-se a idéia de que a foto colorida indica o recente, o novo e a expressão “preto e branco” indica uma fotografia mais antiga, histórias já contadas antes e conhecidas por muitos, aparentemente sem novidade. Mesmo assim a narradora tenta convencer a leitora (escrevo leitora e não leitor porque são a elas dirigidas o livro) de que há uma novidade no que vai contar: “Este não. É original, verídico. Uma diferenciação muito sutil, dentro da mesma modalidade, dos mesmos princípios, das mesmas observações”. Buscando mostrar que pelo fato da história se repetir e até mesmo por essa razão, deixamos escapar o que há de novo, porque buscamos o novo no novo e não o novo no velho.

Também está presente nesses contos a discussão da independência financeira da mulher. Em "O Maítre Renard", por exemplo, logo de início indica que o tema abordado é a da condição econômica feminina e passa a descrever a situação econômica vivida pelos personagens e como se desenrolaria o texto. No entanto, inicia a narrativa com a descrição de um personagem masculino e não da mulher, porque as atitudes daquele que sustenta a casa é que vai provocar a ruptura da relação pela mulher. A partir da fala do personagem são colocadas questões referente ao casamento. Para ele, o casamento, principalmente quando implica em ter filhos, significa a perda da liberdade; e não valia a pena, porque todas as mulheres eram “fúteis”, “inconstantes” e “interesseiras” e as outras, excluídas socialmente, eram vítimas sociais. Mas ele, que na fala condena essa exclusão feminina, a reforça nas suas relações familiares. A mãe e a irmã são excluídas da vida em sociedade. A irmã não tem companhia para sair, já que irmão não a acompanha. Após uma festa de casamento em que ela é privada de participar, por não ter vestimenta adequada, ela toma consciência de que sua dependência financeira contribui para a sua exclusão e resolve estudar para tentar conseguir um emprego, e o faz em silêncio. Após o ingresso no emprego desejado, descobre que: “libertou-se monetariamente...”. E mais, compreendeu que a “A finalidade da existência não era mais, essencialmente, o casamento”. Essa atitude da personagem é indicada com o tom da exemplaridade pela narradora “Tétes na vida! Se me estiverdes lendo, em vez de pensardes, agi, agi depressa!”. A narradora ainda vai colocar sua concepção sobre o casamento no final do conto. Para ela, a personagem não casará porque aprendeu demais. Após alguns anos, marcados no texto, acontece um acidente com o irmão e é neste momento que a mãe descobre que o filho mantinha outra casa muito diferente da casa familiar, uma casa luxuosa feita para “o desfrute dos prazeres”. Por esse mesmo motivo, a irmã não vai visitá-lo, por ser “uma moça honesta” que não deveria freqüentar certos lugares, e ele conta apenas com a mãe para os cuidados, porque tinha sido abandonado pela mulher Por todas essas questões percebe-se que o conto possui o objetivo da exemplaridade, direcionado às leitoras.

Ainda não conseguimos obter muitas informações sobre a biografia de Mercedes Dantas, mas através dos textos é possível perceber que a autora estava antenada com debates acerca da condição feminina. Na década de vinte, Virgínia Woolf fizera conferências sobre o tema abordado no conto citado acima, sob o título de “As Mulheres e a ficção” da qual resultou o livro Um teto todo seu.

Mercedes Dantas, também chega a abordar a condição da mulher nos Estados Unidos. No conto “Potranca”, trabalha a questão da mulher, comparando a condição da mulher brasileira com a condição da mulher americana. Traço a seguir um breve resumo do conto:

A narradora inicia com uma descrição detalhada, como faz em outros contos, de uma mulher e procura uma denominação que esteja em conexão com a referida descrição, denominando-a de Potranca, mas o verdadeiro nome da personagem é Josefina, ou melhor, Fifi. Esta é caracterizada como uma figura vazia, fútil, que deixou de ir à escola por não enxergar utilidade e era dotada de toda uma habilidade em utilizar os parcos recursos que possuía quando era necessário fazer combinações de roupas e acessórios. A moça é filha de um funcionário público, de origem humilde, bela, com muitos namorados, aos quais “deixara, à primeira súplica açucarada, colher a flor mesquinha de sua boca pequenina”. Sonhava em ter um automóvel, e é isso que lhe atrai nos tios que lhe oferecem a vida em sociedade, freqüentando bailes, chás e etc; e a partir daí encontrar um casamento. Com essa finalidade, ela vai morar com os tios, tornando-se parceira da prima. A primeira atitude tomada é a mudança do seu visual – corta os cabelos, faz as sobrancelhas, aumenta a idade e adquire roupas novas. Imprime um outro ritmo às suas atividades diárias, resumidas a levantar tarde, almoço, telefonemas e a rua – passear na avenida, cinemas, chás e “flirt”. Todas essas atividades eram realizadas junto com a prima. Esta tem um papel fundamental na narrativa porque vai mostrar a idéia central da trama. São comportamentos opostos. Fifi é alegre, extrovertida, ri alto, desinibida e a prima é triste, simples, age com moderação. A partir dessa oposição percebe-se a construção de uma imagem de mulher, de um papel a ser seguido dentro da sociedade, pois a prima vai encontrar casamento, enquanto Fifi, pobre e não preparada para a vida na alta roda social, não consegue um marido rico e jovem, e é obrigada pelas circunstâncias, a aceitar a proposta de um homem mais velho que havia sido abandonado pela mulher, em um tempo que não havia o divórcio, mas que lhe oferece toda a sua fortuna.

É importante ressaltar que o texto apresenta duas descrições da personagem uma feita por uma voz feminina, da narradora e outra por uma voz masculina, do tio da personagem. Na primeira está a descrição mostrada acima, como uma moça fútil, vazia de pensamento, enquanto que a outra descrição vai mostrá-la como “uma mulher superior”, insatisfeita que quer mais do que a vida lhe oferecia. A narradora, intencionalmente, insere uma voz masculina, para mostrar sem preconceitos, uma personagem que ousa romper com os padrões de comportamento pré-estabelecidos pela sociedade. Parece que, por ter consciência de que do seu lugar de mulher não teria espaço para realizar esse tipo de descrição da personagem, utiliza-se de uma outra voz, a masculina, que ocupa um lugar legitimado socialmente. A partir desse recurso, evidencia, inclusive, as idéias internalizadas por ambos os sexos ao mesmo tempo em que as questiona. A descrição realizada pela voz feminina está carregada de idéias moralizantes e apesar de não chegar a condenar, coloca subjetivamente a questão: moça ousada serve para a diversão e as “bem comportadas” para o casamento. Mas buscando desconstruir essa visão reserva-lhe ao final a conquista do objeto desejado: automóvel, a fortuna. Até porque o objetivo da personagem não era simplesmente o casamento, porque “não compreendia o casamento com prole, mulher em casa adorando as loiras cabecitas dos pequerruchos...”. E é aqui que a autora introduz a discussão sobre a condição da mulher brasileira, porque logo a seguir a personagem afirma que ela era uma "alma americana", ou seja, o casamento americano não era como o brasileiro, pois aqui, significava o enclausuramento da mulher. Daí a afirmação da personagem: “Tinha ânsia de liberdade. Ser livre!”, compreendia que o casamento era a manutenção da submissão, e diz “Um marido! Um glorioso marido – eis a cela sem saída para a mulher. Monja da vida!” E não era isto que buscava, afirmando enfaticamente: “... eu prefiro a liberdade... li-ber-da-de... Isto sim, isto sim...”. Essa é uma das razões que a faz aceitar a proposta de um homem mais velho, que lhe oferece fortuna.

A construção de papéis aparece também quando a narradora abre um parêntesis para mostrar que as moças e os rapazes durante o Carnaval mostram-se mais liberadas “jovens quase nuas pintadas a ‘vermeillon’”, logo após assumem novamente a máscara social, passam a ser “moças ajuizadas”.

Não se pode deixar de assinalar a articulação das relações de gênero e o papel da mulher na sociedade com a classe social que a jovem detém. A personagem deste conto pertence a extratos baixos da sociedade, não tem dote e esta é a outra razão para ela aceitar a proposta que recebe, por conseqüência da impossibilidade de um casamento com um rapaz jovem e rico. E é após o carnaval, que ela percebe a realidade, isto é, inicia-se a tomada de consciência de sua condição social e ela chega a conclusão de que não era tão fácil romper as fronteiras sociais: “Perfurar outra camada social.Outra ainda!”, consciência que se afirma quando recebe a notícia do casamento da prima, esta sim compromete-se com um homem jovem e rico porque tem um dote, enquanto que elaSabem o que sou aqui. Valho o meu sorriso, mais nada. Outros são pobres... pobres moços que vislumbro lá embaixo...”.

Tanto Fifi, quanto muitas outras personagens dos outros contos não se inserem no modelo da burguesia, e para elas estava reservado um marido pobre. Essa é a lei que imperava na sociedade, o casamento era visto como um meio de ascensão social reservado aos fortes, aos ricos, às mulheres com dote e que desempenhavam bem os papéis a elas destinado.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

Brito. Cândida de. Antologia Feminina - escritoras e poetisas contemporâneas. 2º edição melhorada. Prefácio de Augusto de Lima (da Academia Brasileira de Letras). Rio de Janeiro: Edição da: A Dona de Casa, 1929. Localização: Biblioteca do ILUFBA.

DANTAS. Mercedes. Nus. Rio de janeiro: Empresa Brasil Editora, limitada, 1925.Livro de contos; Localização: Biblioteca do ILUFBA e acervo da pesquisa.

DANTAS. Mercedes. Adão e Eva. Rio de Janeiro: Composto impresso na Typografia do Anuário do Brasil, 1928. Localização: idem.

WOOLF. Virgínia. Um teto todo seu. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1985.