DES(NU)DANDO MERCEDES DANTAS
Carla Patrícia Santana - UFBA
A narradora inicia com uma descrição detalhada, como faz em outros contos, de uma mulher e procura uma denominação que esteja em conexão com a referida descrição, denominando-a de Potranca, mas o verdadeiro nome da personagem é Josefina, ou melhor, Fifi. Esta é caracterizada como uma figura vazia, fútil, que deixou de ir à escola por não enxergar utilidade e era dotada de toda uma habilidade em utilizar os parcos recursos que possuía quando era necessário fazer combinações de roupas e acessórios. A moça é filha de um funcionário público, de origem humilde, bela, com muitos namorados, aos quais “deixara, à primeira súplica açucarada, colher a flor mesquinha de sua boca pequenina”. Sonhava em ter um automóvel, e é isso que lhe atrai nos tios que lhe oferecem a vida em sociedade, freqüentando bailes, chás e etc; e a partir daí encontrar um casamento. Com essa finalidade, ela vai morar com os tios, tornando-se parceira da prima. A primeira atitude tomada é a mudança do seu visual – corta os cabelos, faz as sobrancelhas, aumenta a idade e adquire roupas novas. Imprime um outro ritmo às suas atividades diárias, resumidas a levantar tarde, almoço, telefonemas e a rua – passear na avenida, cinemas, chás e “flirt”. Todas essas atividades eram realizadas junto com a prima. Esta tem um papel fundamental na narrativa porque vai mostrar a idéia central da trama. São comportamentos opostos. Fifi é alegre, extrovertida, ri alto, desinibida e a prima é triste, simples, age com moderação. A partir dessa oposição percebe-se a construção de uma imagem de mulher, de um papel a ser seguido dentro da sociedade, pois a prima vai encontrar casamento, enquanto Fifi, pobre e não preparada para a vida na alta roda social, não consegue um marido rico e jovem, e é obrigada pelas circunstâncias, a aceitar a proposta de um homem mais velho que havia sido abandonado pela mulher, em um tempo que não havia o divórcio, mas que lhe oferece toda a sua fortuna.
É importante ressaltar que o texto apresenta duas descrições da personagem uma feita por uma voz feminina, da narradora e outra por uma voz masculina, do tio da personagem. Na primeira está a descrição mostrada acima, como uma moça fútil, vazia de pensamento, enquanto que a outra descrição vai mostrá-la como “uma mulher superior”, insatisfeita que quer mais do que a vida lhe oferecia. A narradora, intencionalmente, insere uma voz masculina, para mostrar sem preconceitos, uma personagem que ousa romper com os padrões de comportamento pré-estabelecidos pela sociedade. Parece que, por ter consciência de que do seu lugar de mulher não teria espaço para realizar esse tipo de descrição da personagem, utiliza-se de uma outra voz, a masculina, que ocupa um lugar legitimado socialmente. A partir desse recurso, evidencia, inclusive, as idéias internalizadas por ambos os sexos ao mesmo tempo em que as questiona. A descrição realizada pela voz feminina está carregada de idéias moralizantes e apesar de não chegar a condenar, coloca subjetivamente a questão: moça ousada serve para a diversão e as “bem comportadas” para o casamento. Mas buscando desconstruir essa visão reserva-lhe ao final a conquista do objeto desejado: automóvel, a fortuna. Até porque o objetivo da personagem não era simplesmente o casamento, porque “não compreendia o casamento com prole, mulher em casa adorando as loiras cabecitas dos pequerruchos...”. E é aqui que a autora introduz a discussão sobre a condição da mulher brasileira, porque logo a seguir a personagem afirma que ela era uma "alma americana", ou seja, o casamento americano não era como o brasileiro, pois aqui, significava o enclausuramento da mulher. Daí a afirmação da personagem: “Tinha ânsia de liberdade. Ser livre!”, compreendia que o casamento era a manutenção da submissão, e diz “Um marido! Um glorioso marido – eis a cela sem saída para a mulher. Monja da vida!” E não era isto que buscava, afirmando enfaticamente: “... eu prefiro a liberdade... li-ber-da-de... Isto sim, isto sim...”. Essa é uma das razões que a faz aceitar a proposta de um homem mais velho, que lhe oferece fortuna.
Brito. Cândida de. Antologia Feminina - escritoras e poetisas contemporâneas. 2º edição melhorada. Prefácio de Augusto de Lima (da Academia Brasileira de Letras). Rio de Janeiro: Edição da: A Dona de Casa, 1929. Localização: Biblioteca do ILUFBA.
DANTAS. Mercedes. Nus. Rio de janeiro: Empresa Brasil Editora, limitada, 1925.Livro de contos; Localização: Biblioteca do ILUFBA e acervo da pesquisa.
DANTAS. Mercedes. Adão e Eva. Rio de Janeiro: Composto impresso na Typografia do Anuário do Brasil, 1928. Localização: idem.